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MEMÓRIAS POR RENATO GIUSEPPE GIOVANNI TERZI

Cirurgião cardiovascular e Intensivista

Nascido em Bergamo, Itália, em 26 de abril de 1937

Foram seis anos de convívio feliz com meus colegas de Faculdade. Durante o Curso participei do Centro Acadêmico Rocha Lima em vária posições porém a que me deu maior satisfação foi a realização do Baile Branco tanto em 1956 como em 1957. Participei com o Teruel na elaboração de um Jornal Mural, um cáustico folhetim em que fazíamos criticas e algumas gozações aos colegas e professores.  

Após concluir o Curso, decidi fazer Residência Médica no exterior. Inicialmente fiz um ano de Internato seguido de quatro anos de Cirurgia Geral em Nova York. Neste período voltei ao Brasil para me casar com Sylvia. Continuei com mais dois de Residência em Cirurgia Torácica e Cardiovascular no North Carolina Memorial Hospital da Universidade da Carolina do Norte na cidade de Chapel Hill. Neste período nasceu no mesmo Hospital a minha filha Cristina. Ao término de sete anos de formação voltei desempregado para o Brasil com mulher e uma filha com seis meses de idade. Felizmente, fui logo contratado pelo Prof. David Rosemberg para o departamento de Cirurgia da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp. Nos anos seguintes, nasceram meu filho Renato, e o caçula, Eduardo, ambos engenheiros e executivos de Empresas. A Cristina foi fazer a especialidade do pai. Medicina Intensiva.

Ao ingressar na Unicamp o fiz em tempo parcial de forma que pude ingressar no Corpo Clínico de Hospital Irmãos Penteado, o setor Privado da Santa Casa. Em 1970 o atendimento de urgência oferecido à população de Campinas pelo Instituto Nacional de Previdência Social (INPS), limitava-se ao antigo Serviço de Atendimento Médico Domiciliar de Urgência (SAMDU). Constatada sua ineficácia, o INPS decidiu extinguir o SAMDU e decidiu firmar convênio global com a Irmandade de Misericórdia no sentido de centralizar todo o atendimento de Emergência no Pronto Socorro do Hospital Irmãos Penteado. O Provedor da Santa Casa, General João Carlos Betim Paes Leme me convidou para Chefiar este novo PS.

O planejamento inicial, a definição da área física, as reformas, a instalação de moderno equipamento de Reanimação Cardiopulmonar e a contratação de 36 plantonistas, bem como a integração destes, com os especialistas de plantão - coisa incomum na década de 70 - deram ao serviço de Emergência do Hospital, o reconhecimento público na região. Havia uma linha direta com a Polícia Rodoviária na Rodovia Anhanguera. O PS atendia a mais de mil pacientes por dia. No meu entender, este foi o mais relevante serviço público que pude prestar a Campinas e região. Ainda, no Hospital Irmãos Penteado criei a Unidade Respiratória, adquirindo respiradores artificiais assim como aparelhos de gasometria.

Na Unicamp fiz carreira acadêmica passando por todas as etapas de ascensão até a posição de Professor Titular por Concurso realizado em 2002 aos 65 anos. Por sinal, participou de minha Banca o colega Reginaldo Ceneviva.

Na década de 80 me dediquei com especial interesse à Medicina intensiva. Dei visibilidade à Unidade de Terapia Intensiva da Unicamp da qual fui fundador e Diretor por mais de dez anos. Dentro desta nova  especialidade, participei intensamente da vida associativa. Fui Presidente da AMIB (Associação de Medicina Intensiva Brasileira) na qual Editei dezoito livros como Editor geral da Série Clínicas Brasileiras de Medicina Intensiva. Publiquei vários livros como Editor ou Co-editor. Fui Membro do Council da Federação Panamericana e Ibérica de Medicina Crítica  e Terapia Intensiva (FEPIMCTI), assim como membro do Council da World Federation of Critical Care Medicine (WFCCM).

Na Universidade ocupei posições administrativas cujas decisões mudaram o curso das coisas. Fui Presidente da Comissão de Residência (COREME) que assumi com quatro residentes quando hoje ingressam mais de 400 ao ano. Em momento crítico de implantação da Residência, fiz publicar em Diário Oficial que o ingresso à Residência Médica seria por Concurso Público com regras publicadas em Edital. Após publicação com a devida antecedência do Edital do concurso em 1972 e feita a lista classificatória o Professor da Oftalmologia exigia que fosse chamado o quarto classificado, pois ele era filho de um oftalmologista da região ao qual ele havia prometido a vaga. O professor, de muita fama, que fora um dos que batalharam para a implantação da Faculdade alguns anos antes e foi, inclusive, seu primeiro Diretor, havia montado o Departamento de Oftalmologia trazendo equipamento próprio do Instituto Penido Burnier, onde clinicava. Assim, julgava-se intocável. Eu, recém-contratado, sentia-me como David a enfrentar Golias. Porém, por senso de justiça não podia deixar de chamar o filho de um chacareiro do Paraná que conquistou o primeiro lugar no Concurso.

Consultei meu cunhado desembargador, que me ajudou a redigir ofício ao Reitor Zeferino Vaz. Com este ofício, nem que quisesse, Zeferino não poderia tergiversar. Soube mais tarde que houve acalorada discussão no gabinete do Reitor. O professor pediu demissão assim como todos os seus assistentes e retirou todo equipamento da Santa Casa, onde funcionava a Faculdade. Eu fiquei com um pepino na mão. Ambulatórios funcionando, Residentes para treinar, cirurgias programadas, urgências para atender e toda a burocracia de um departamento. Foi quando pedi socorro ao nosso colega José Tanuri Habib. Devo a ele, até hoje, a salvação. Durante um ano, o Habib vinha a Campinas semanalmente, auxiliava os residentes nas Cirurgias e nos casos difíceis dos ambulatórios e assinava documentos de ofício. Só um ano mais tarde seria contratado um Professor permanente que desenvolveu o departamento a ponto de contar hoje, com quarenta residentes.

Por mais de dez anos também ocupei a Presidência da Comissão de Contratos, crítica para a Instituição porque exige produção docente nas três esferas, de Ensino, de Assistência e de Pesquisa. Nesta Comissão tive o desprazer de não renovar o Contrato de vários colegas. Porém, este período de cobrança, resultou em aumento exponencial das publicações internacionais da Universidade. Há muitos anos venho discutindo com a AMIB o CRM e o CFM a necessidade de mudança da cultura dos médicos, particularmente Intensi-vistas, em relação à terminalidade, o tratamento fútil e a obstinação terapêutica no paciente sem prognóstico. Trabalhei na elaboração de documentos que eclodiram com a Resolução CFM Nº 1.805/2006 hoje vigente e que possibilita, desde que haja anuência da família, a interrupção do suporte avançado de vida e um programa de Cuidados Paliativos.

Minha filha, Cristina, que também é médica Intensivista na Unicamp, está hoje (2015) nos Estados Unidos, no Hospital onde nasceu, se especializando em Cuidados Paliativos.

Creio que é meio caminho andado para que eu possa morrer sem lancinante sofrimento. Enquanto não chega o momento... continuo ativo. Após minha aposentadoria em 2007 criei uma Empresa que dá Cursos para médicos, principalmente  Intensivistas e Emergencistas (www.terzius.com.br).

 

UM POUCO MAIS DE SUA VIDA ACADÊMICA

Após a graduação, frequentou como assistente voluntário a Primeira Clínica Cirúrgica de Mulheres da Santa Casa de São Paulo, dirigida pelo venerando doutor José Ayres Netto. Neste serviço, a limitação das oportunidades cirúrgicas, imposta por uma estrutura tradicional e moldada no sistema europeu, fez com que se concretizasse a idéia de cumprir programa de residência nos Estados Unidos. Qualificado pelo "Educacional Council of Foreign Medical Graduates" e na condição de "Exchange-visitor" cumpriu um ano de Internato Rotativo, quatro anos de residência em Cirurgia Geral e dois anos de Cirurgia Torácica e Cardiovascular. Embora já tivesse maior experiência cirúrgica que os demais internos de Steubenville, o primeiro ano no exterior foi por estágios nas grandes áreas clínicas: Clínica Médica, Cirurgia Geral, Pediatria e Ginecologia e Obstetrícia. Valeu-lhe a oportunidade de adquirir fluência na língua inglesa e maior integração nas rotinas clínicas. Foi em Nova York que iniciou sua residência em Cirurgia Geral, no "Bronx Hospital", sob orientação do doutor Ralph Friedlander. No terceiro ano de residência, por força de fusão administrativa deste Hospital com o "Lebanon Hospital" formou-se um grande complexo hospitalar denominado "The Bronx-Lebanon Hospital Center of New York". Por este motivo foi convidado a assumir a Chefia do Departamento o professor Paul H.Gerst, do Departamento de Cirurgia Torácica e Cardiovascular da "Columbia University". Foi nesta época que o candidato teve os primeiros contatos com cirurgia cardíaca a céu fechado, cirurgia vascular restauradora e a então incipiente cirurgia de implante de marcapasso. 

Nos quatro anos de residência estagiou nas áreas de Cirurgia Geral, Torácica, Cardiovascular, Ortopédica, Urológica, Pediátrica, Plástica e Neurológica. Sempre com supervisão de especialistas, realizou praticamente todo tipo de cirurgia, tais como gastrectomias, mastectomias radicais, tireoidectomias, colectomias, implante de marcapasso, implante de válvula de Spitz-Holter, osteossínteses e prostatectomias. 

Participou, nestes quatro anos, de mais de mil cirurgias, das quais trezentas e oitenta e quatro como cirurgião. Este número ultrapassa, com grande margem, o número mínimo de duzentas e cinquenta cirurgias necessárias para credenciar postulantes à realização do exame para a obtenção do título de especialista em Cirurgia, o "American Board of Surgery". Este título seria obtido mais tarde, quando o candidato foi examinado pelos doutores William Moretz e J. Garrot Allen, entre outros. 

Ainda durante os quatro anos de residência em Cirurgia Geral, cumpriu seis meses no Departamento de Anatomia Patológica, onde foram estudadas peças cirúrgicas e realizaram-se mais de cem necrópsias sob responsabilidade do professor Gerald Reiner. 

Seis meses também foram cumpridos nos Laboratórios de Pesquisa da Columbia University, com o doutor Stephen Wangensteen. 

No último ano de residência, na qualidade de "Chief Resident", além de intensa atividade cirúrgica, completou a sua formação assumindo a responsabilidade administrativa por uma enfermaria de sessenta leitos e pela orientação de doze "Junior Residents". 

Foi por orientação do professor Gerst que o candidato seguiu sua formação em Cirurgia Torácica e Cardiovascular, na Universidade da Carolina do Norte onde, no período de dezoito meses de atividade clínica, participou de mais de duzentas cirurgias, a maior parte com circulação extracorpórea. Destas, aproximadamente cinquenta foram toracotomias para ressecção pulmonar, onde o candidato atuou como cirurgião, tendo, em geral, como auxiliares apenas residentes de Cirurgia Geral que estagiavam no serviço. 

O volume significativo de ressecções pulmonares realizado deve-se ao tratamento cirúrgico da tuberculose, muito utilizado na década de sessenta. O Hospital da Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill, e o Hospital da Universidade de Duke, em Durham, dividiam entre si todos os casos cirúrgicos de tuberculose do Sistema de Sanatórios do Estado. Mensalmente, realizava-se uma sessão conjunta com a participação também do doutor William Sealy da "Duke University" e o grupo de Chapel Hill, para discutir as indicações cirúrgicas e o encaminhamento dos pacientes. 

Seis meses foram cumpridos no Laboratório de Cirurgia Experimental da Divisão de Cirurgia Torácica e Cardiovascular, Biomatemática e Bioengenharia do Departamento de Cirurgia da Escola de Medicina da Universidade da Carolina do Norte. A atividade ali desenvolvida será abordada em capítulo posterior. 


ESTÁGIO 

·      Estágio na Primeira Clínica Cirúrgica de Mulheres (Serviço do doutor José Ayres Netto) da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, na qualidade de Assistente Voluntário, no período de 1 de janeiro a 03 de julho de 1961


INTERNATO 

·      Internato rotativo no Ohio Valley Hospital, na cidade de Steubenville, Ohio, Estados Unidos, de julho de 1961 a julho de 1962


RESIDÊNCIA EM CIRURGIA GERAL 

·      Realizada no Bronx-Lebanon Hospital Center de Nova York, de julho de 1962 a julho de 1966  


"FELLOWSHIP" EM CIRURGIA TORÁCICA E CARDIOVASCULAR E CHEFIA DE RESIDENTES EM CIRURGIA TORÁCICA E CARDIOVASCULAR 

·      Estas funções foram exercidas na Divisão de Cirurgia Torácica e Cardiovascular, Biomatemática e Bioengenharia do Departamento de Cirurgia na Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill, sob responsabilidade do professor Richard M. Peters, de julho de 1966 a julho de 1968  


CURSOS DE EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA 

·      Curso de "Atualização em Transplantes", organizado pela Associação dos Antigos Alunos da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, Centro de Estudos de Imunologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, Departamento de Cirurgia da Associação Paulista de Medicina, Capítulo de São Paulo do Colégio Brasileiro de Cirurgiões e Regional de São Paulo da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, em 18 e 19 de outubro de 1969  

·      Curso de "Radiologia Cardiovascular", organizado pelo Departamento de Cardiologia e pelo Serviço de Radiologia da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas, de 27 a 29 de julho de 1975  

·      Curso de "Radiologia Pulmonar", ministrado pelo professor Nelson Pôrto e patrocinado pelo Colégio Brasileiro de Radiologia, nos dias 18 e 19 de julho de 1976  

·      Curso de "Ventilação Mecânica", durante o II Congresso Brasileiro de Pneumologia, de 24 a 30 de outubro de 1976  

·      Curso de "Mecânica Respiratória", durante o II Congresso Brasileiro de Pneumologia, de 24 a 30 de outubro de 1976  

·      Curso de "Transporte de Oxigênio", durante o II Congresso Brasileiro de Pneumologia, de 24 a 30 de outubro de 1976

·      Curso de "Treinamento Intensivo em Estimulação Cardíaca", no Centro de Ensino de Marcapassos da MEDTRONIC, ministrado pelo doutor Décio Kormann, em 25 de maio de 1977

·      Curso de "Cirurgia Torácica", realizado no Parque Sanatorial do Mandaqui, em São Paulo, de 17 a 21 de novembro de 1980

·      Curso de “Advanced Cardiac  Life Support”, na American Heart Association Eastern OHIO Chapter em agosto de 1983

·      Curso de “Advanced Cardiac  Life Support”, na American Heart Association Eastern OHIO Chapter em agosto de 1984

·      WorkShop “Procedimentos Modernos na Terapia Respiratória”, pelos Drs. Detlef Warnow e Bernhard Klein, da Alemanha, no Rio de Janeiro em 07 de maio de 1991   

·      Curso de ATLS

·      I Curso de “Medicina Hiperbárica”, realizado na Cidade Universitária Zeferino Vaz em julho de 1995 

·      Curso de “Suporte Hemodinâmico em UTI”, realizado em Campinas pelo Centro de Estudos da UTI, em 06 de junho de 1997

·      Curso de “Instructor of Automated Defibrillators” de acordo com o currículo do Institute Of Critical Care Medicine, outubro de 1997


ESTÁGIOS PÓS-DOUTORADO 

·      Estágio na qualidade de "Preceptor" na Unidade de Terapia Intensiva do Jackson Memorial Hospital da Universidade de Miami, dirigido pelo Dr. Joseph Civetta, de 01 a 10 de dezembro de 1981

·      Estágio como bolsista do CNPq, na qualidade de "Visiting Fellow" no Serviço de Cirurgia Cardíaca do Massachussetts General Hospital, sob a direção do Dr. Gerald Austen, de 15 de dezembro de 1981 a 28 de Fevereiro de 1982