Giusi 3.jpg

Giuseppina Terzi Ito

Lembranças nossas, as mais antigas.

            Ele tinha oito anos quando eu nasci, era o fim da segunda guerra. Passados dois anos nossos pais emigraram para o Brasil em busca de um lugar para viver em paz, longe dos temores de uma nova guerra. Meu pai veio contratado como técnico gráfico, pela Cia Melhoramentos.

            Pai, mãe, irmão, o avô materno e eu era toda a nossa família em Caieiras. O papel afetivo da família amiga e acolhedora dos Souza veio nos completar.

            Passado um tempo papai se torna free-lancer, seu trabalho permanece sempre disputado por grandes indústrias gráficas paulistas. A mamãe sempre apoiando no trabalho, na casa, na administração e na educação dos filhos. Uma boa parceria!

            Lembranças de Renato? Muitas. Com onze anos o italianinho teve aulas de língua portuguesa com um padre professor. Num exame para cursar o ginásio obteve a nota máxima nessa matéria.

            Eram poucas as ofertas de boas escolas próximas a nossa casa e meus pais sempre pensando em lhe oferecer uma boa educação. Ele sempre vivaz! Com desapego, matricularam Renato no ginásio interno do Arquidiocesano de Campinas, onde era acompanhado de perto pela “Suora Filomena”, uma freira italiana, querida amiga de nossos pais. Alguns domingos íamos de trem visitá-lo em Campinas com direito a piquenique no Bosque! Às vezes na companhia de amigos da família Cugini a qual pertenciam o Bruno e o Gugliemo.

            Com catorze anos findo o ginásio volta a morar conosco, na casa projetada e recém construída por meu pai no Alto da Lapa. Vai cursar o colegial no Liceu Coração de Jesus, tempo em que se dedica muito ao estudo. É frequentador assíduo da biblioteca Municipal Mario de Andrade.

            Em 1952 o entretenimento principal era o cinema. Lembro-me que então eu tinha oito anos e ele dezesseis. Era comum nos domingos ele e seu amigo Bruno escolherem no jornal o filme a assistir e eu os “ajudava” a escolher um espetáculo “livre” para que pudesse ir junto. Eles eram gentis e lembro das vezes que me levaram junto.

            Dentre os presentes queridos que ele me deu e ficaram na memória: um livro Conto de Natal de Charles Dickens. Para comemorar meus 10 anos: uma entrada de cinema para assistir no maravilhoso Cine Olido, de arquitetura moderna e recém inaugurado, o filme de Jacques Tati, “Mon oncle”, com o personagem do Monsieur Hulot. O contentamento era muito! Uma orquestra ao vivo enchia de sons aquele espaço antes que escurecesse e as imagens do documentário Primo Carbonari, traillers  e a mágica do filme começassem a  se movimentar na tela.

            Lembro-me de seus cadernos escritos com letra clara, como seus pensamentos, com desenhos explicativos, de matemática, física, química e biologia. Sua curiosidade em saber o como e o porquê, buscando conhecer as leis do universo a entender o mundo sempre com seu olhar maravilhado pela vida! O Liceu abriu-lhe novas fronteiras. Ele citava seus mestres, infelizmente não lembro seus nomes mas ele lhes era eternamente agradecido. Os mentores do seu caminho!

            Por que bate o coração? Lembro-me como aos 15 ou 16 anos quando dissecou um sapo e ficou observando essa bomba pulsante e me mostrando empolgado   me deu uma aula. No futuro sua especialização como cirurgião iria justamente ao coração e pulmão.

            Amava a música, amava os discos, lembro-me de Simonetti e sua orquestra, The Platters, e dos clássicos que sempre ouvia. Os long plays girando na vitrola do móvel moderno da sala de estar.

            Passávamos as férias de verão com meus pais na praia, mesmo que fosse só por duas semanas. Primeiro na Praia de Itararé em pensão de uma italiana e depois em S. Vicente, alugando uma casinha muito simples. Era distante da praia, no retorno o sol alto nos dourava a pele, junto aos amigos Bruno e Guilherme que eram sempre seus parceiros, como meus irmãos. Uma parada para beber água fresca na Biquinha, uma olhada no relógio de sol da praça.

            Os pais voltavam antes para adiantar o almoço e preparar o macarrão. No almoço devorava-se com imenso apetite e enorme prazer o almoço recém preparado. De tarde um descanso, passeios, comer doces na doceira junto a Ponte Pênsil. Tão pouco e tão felizes!

            Ainda com 17 anos entrou na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto. A boina amarela sobre sua cabeça raspada! Outra vez ele se ausenta de casa, sempre lutador e vencedor de seus próprios propósitos! Quando voltava para casa era uma alegria de festa!

            Mamãe com 44 anos papai com 50 preparam-se para o nascimento de mais um filho, o Sergio, filho temporão. Nós os irmãos com 22 e 14 respectivamente. Lembro-me do Renato dizer para a mãe, avise-me quando for a hora virei fazer seu parto! Claro que não deu tempo! Nasceu de parto natural, lindo e forte!

            Findos os seis anos do curso de medicina, veio a formatura e o evento tão esperado por mim e minhas amigas de 14 anos, a Circe, a Cinzia, a Zezinha, a Aparecida: era o baile da medicina. Renato, passadas as comemorações, com o diploma na mão, perguntava: Che fare? (que fazer?).

            Outra vez a viagem para os EUA em busca de estudo e profissionalização em Ohio, New York e Carolina do Norte, ao todo 7 anos ausente do Brasil. Neste meio tempo, namora Sylvia com quem se casa e ela o acompanha em sua jornada fora do Brasil. Ela o ajuda e trabalha também no laboratório de análise do Hospital do Bronx em Nova York.

            Era 1969 quando fomos recebê-los de volta no Aeroporto de Viracopos. Uma linda menininha de 6 meses balançava na cestinha que eu mal via através do vidro, minha doce sobrinha Cristina. Alegria e emoção foram um só sentimento.

            Um pequeno tempo morando na edícula de nossa casa e logo mudaram-se para Campinas, na Lagoa do Taquaral onde nasceria Renato, meu querido sobrinho. Meu irmão vai trabalhar como médico no Hospital Irmãos Penteado.

            Muitos domingos o almoço em São Paulo, na casa de meus pais. Antes de virem para o almoço, o médico Dr. Renato dava uma rápida passada pelo hospital, nadinha, umas duas horas! Tardava a começar o almoço! Dedicação plena aos seus pacientes!

            Eu, recém formada, faço o projeto a casa deles em Campinas. Renato dizia: não faça arquitetura experimental em minha casa, que eu não farei medicina experimental em você! Papai acompanha a construção no ano de 1971, quando nasce o terceiro filho Eduardo. Foram muitos os dias compartilhados em fins de semana e todas as festas do ano. Sempre acolhedor, alegre e otimista.

            Sempre foi médico da nossa família, ajudando no que pôde os amigos, que foram sempre gratos pelos seus cuidados médicos, atendimentos, conselhos, encaminhamentos com muita solicitude e carinho.

            Três vezes salvou a vida de nossa mãe. Uma vez por parada cardíaca, outra vez faltando-lhe o ar quando a bombinha de asmáticos não funcionou ele levou-a imediatamente ao hospital. A terceira vez tomando providências que tomou rapidamente, ao perceber por telefone que ela estava tendo uma crise de hipoglicemia.

            Quantos depoimentos não teríamos que ajuntar aqui? Plena confiança tínhamos nele.

            Estas foram pinceladas dos fatos ou memórias do nosso convívio da primeira célula familiar. No campo profissional e no tempo de convívio familiar, falam mais as memórias dos filhos e Cristina, Renato e Edu, seus queridos filhos, de Milena e de Marcelo assim como sua amada companheira Nilde, além dos médicos que o assistiram e que foram tão presentes com desvelo nesta última jornada da vida dele além de familiares, colegas, alunos e amigos.

            É para se assinalar uma característica de Cristina que, além de filha, foi colega e parceira de Renato, compartilhou muito da mesma vida do pai dedicada e ao ensino de medicina na busca humana de cuidar e de curar, de ética médica, respeito pelo paciente, buscando humanizar a medicina com os cuidados paliativos que, nesses últimos momentos, foram tão bem aplicados a seu pai juntando carinho e profissionalismo.

            Este ano excepcional de 2020, é um desafio para o mundo todo na luta contra o Covid. Ano de isolamento que não nos deixou compartilhar mais do que fizemos. Uma imensa saudade é o que sinto agora, na aceitação dessa última difícil fase que ele teve que enfrentar e que deixa uma enorme ausência, mas que seu sorriso, sua risada e seu otimismo, seu prazer pela boa cozinha e pelo vinho e também pelas viagens estão presentes na minha memória e me acompanharão para sempre.

            Um enorme agradecimento a todos que participaram dessa jornada de sua vida ajudando-o a viver a vida que lhe foi dada.