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Amando Siuiti Ito

CONVERSAS IMAGINADAS


- E aí, Natão, como vai essa força?

- Um aço! Estou firme, um aço!!

- Que bom, fortão como sempre te conheci. Desde aquele dia em que a Giusi falou: "Vamos pra Campinas, você vai conhecer meu irmão". Lembro de uma amiga que dizia pro filho: "Legal a menina que você está namorando, só tem um porém, você precisa tomar cuidado com o Cunha." "Que Cunha?" perguntou o filho? "Ora, é o irmão dela, seu cunhado, você vai ver: parece um cara legal, mas é um vagau, um folgado; vai chegando de mansinho, dali a pouco vai pedir uma grana emprestada, depois mais um pouco, e no fim você vai acabar sustentando o cara!" Bom, a gente foi se conhecendo e concluí que quem tinha que tomar cuidado com o Cunha era você, e não eu!

- Ehhh, exagerado! A verdade é que a gente dava duro, levava bem a sério as coisas que fazia.

- É verdade, mas a gente, que era mais novo, não pegava tão pesado, tava sempre passeando, viajando, acampando...

- Eu também tive minhas fases, um dia, as crianças eram pequenas, resolvi sair com elas e acampar em uma praia legal. Só que choveu tanto naquela noite, mas tanto que não deu outra: barraca inundada, a solução foi levantar acampamento e ir direto pra um hotel! Mas eu também tive minhas aventuras, um fim de semana resolvemos, eu, Bruno e Guilherme, ir pra Serra do Mar e descer por uma trilha, até o litoral. E aí de novo foi aquela chuva, a gente não achava o caminho, veio a noite, no outro dia estávamos perdidos, sujos, picados pelos mosquitos, andamos por um bananal e chegamos lá em baixo, em Itanhaém!! Foi difícil, ninguém queria conversa com aqueles três esfarrapados, famintos e cansados, até que alguém ficou com dó, conseguimos nos lavar e nos arrumar, e descolamos uma condução até São Vicente, e fomos para a casa de amigos.

- Puxa, que aventura! O bom é que sempre sobra uma estória pra contar. Vem cá, lembro que sua vida de cirurgião não era fácil, a Giusi lembra de almoços de domingo, preparados pelo nonno, você atrasava porque nunca deixava de fazer a visita matinal aos pacientes. E no geral você era sempre um cara elegante, impecável naqueles ternos de corte perfeito. E aquela vez em que o Paulo inaugurou uma exposição perto do beco do Batman, e estava cheio daquela moçada descolada, grafiteiros, etc. Aí, de repente aparece um senhor, os manos e manas ficaram olhando desconfiados, falando mais baixo. O pior é que ao lado daquele senhor estava um homem em um terno elegante, e do outro lado um outro sujeito, mais jovem, também de terno... Alguém do nosso lado ficou assustado e cochichou: "quem são aqueles mafiosos??" Gargalhadas, eram ninguém mais que nonno, Renatão e Renatinho prestigiando as artes grafiteiras do Paulo.

- Hahaha, a gente sempre trabalhando, mas também se divertindo. Lembro que eu curti muito aquele poema em que falaram que era do Borges, parece que não era, mas dizia:

"Se eu pudesse novamente viver a minha vida, 
na próxima trataria de cometer mais erros. 
Não tentaria ser tão perfeito, 
relaxaria mais, seria mais tolo do que tenho sido. 

Seria menos higiênico. Correria mais riscos, 
viajaria mais, contemplaria mais entardeceres, 
subiria mais montanhas, nadaria mais rios. 
Iria a mais lugares onde nunca fui, 
teria mais problemas reais e menos problemas imaginários." 


-É isso mesmo... Bom, Natão, está ficando tarde e eu preciso ir embora. Não, você não pode ir, dessa vez tem que ficar aqui. Vou indo e levando palavras que são do Borges:

“Quando você atinge a minha idade, você percebe que não poderia ter feito as coisas muito melhor ou muito pior do que a maneira com a qual você fez em primeiro lugar.” E “Todos os caminhos levam à morte. Perca-se”.